Letramento Informacional no combate às Fake News: aplicação de Objeto de Aprendizagem em uma capacitação para idosos

 

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Bruno Luce

Mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Informática na Educação.
Instituto Federal de Educação, CIência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, IFRS, Brasil.

Laura Valladares De Oliveira Soares

Doutoranda em Educação em Ciências Química da Vida e Saúde.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Brasil

Lizandra Brasil Estabel

Professora do curso Técnico em Biblioteconomia, Mestrado Profissional em Informática na Educação.
Instituto Federal de Educação, CIência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, IFRS, Brasil.

 

Resumo

Este trabalho é um relato de experiência que tem como objetivo central apresentar o desenvolvimento de um Objeto de Aprendizagem (OAs), implementado, em uma turma de idosos, na oficina de capacitação informacional visando desenvolver as competências para identificação das fake news. Os idosos como imigrantes digitais apresentam dificuldades para lidar com a informação em ambientes web, resultando no compartilhamento de fake news.  Através da construção de uma OAs foi possível abordar de forma lúdica o tema das fake news. No entanto foram identificadas algumas limitações na compreensão do Curso e seu conteúdo se não tiver a presença de um mediador. Assim, destaca-se a relevância de serem realizadas mais oficinas de letramento informacional por bibliotecários destinadas a este público.

Abstract

This work is an experience report whose main objective is to present the development of a Learning Object (LO), implemented in a class of elderly people, in the informative training workshop in order to develop skills to identify false news. Elderly people as digital immigrants find it difficult to deal with information in web environments, resulting in the sharing of false news. Through the construction of an LOs it was possible to approach the topic of false news in a playful way. However, some limitations were identified in the understanding of the Course and its content if there is no mediator present.

Resumen

Este trabajo es un relato de experiencia cuyo principal objetivo es presentar el desarrollo de un Objeto de Aprendizaje (OA), implementado en un grupo de personas mayores, en el taller de formación informativa con el objetivo de desarrollar habilidades en la identificación de Fake News. Las personas mayores, como inmigrantes digitales, tienen dificultades para gestionar la información en entornos web, lo que se traduce en el intercambio de Fake News. Al construir un O.A. fue posible abordar el tema de las Fake News de una manera lúdica. Sin embargo, se identificaron algunas limitaciones en la comprensión del Curso y su contenido en ausencia de un mediador presente. De ahí la relevancia del hecho de que los bibliotecarios realicen más talleres de alfabetización informacional dirigidos a este público.

Resum

Aquest treball és un informe d'experiència que té com a objectiu principal presentar el desenvolupament d'un objecte d'aprenentatge (OA), implementat en una classe de gent gran, al taller d'alfabetització informacional, per tal de desenvolupar les habilitats per identificar notícies falses. La gent gran, com a immigrants digitals, tenen dificultats per tractar la informació en entorns web, la qual cosa dona com a resultat la compartició de notícies falses. Mitjançant la construcció d'un OA, es va poder abordar de manera lúdica el tema de les notícies falses. Tot i això, es van identificar algunes limitacions en la comprensió del curs i del seu contingut si no hi ha cap mediador present. Així, es posa en relleu la importància de dur a terme més tallers d'alfabetització informacional per part de bibliotecaris per a aquest públic.

 

1 Introdução

Com o desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) a propagação de informações ganhou um maior alcance; também,a produção informacional e seu compartilhamento foram favorecidos pelo advento da tecnologia. Recuero (2011, p.116) reforça o que facilitou a propagação de informação: “O surgimento da internet proporcionou às pessoas a possibilidade de difundir as informações de forma mais rápida e mais interativa.” No entanto, essa facilidade pode acarretar problemas como a propagação de notícias falsas em grande escala. Por exemplo, as fake news ganharam destaque no ano de 2016 devido as eleições americanas e o BREXIT.

Para alguns autores a tradução - notícias falsas - do termo em inglês não traduz a complexidade que ele carrega (Zuckerman, 2017. Allcott; Gentzkow, 2017. Roxo; Melo, 2018). Allcott e Gentzkow (2017) caracterizam as fake news como informações que querem ludibriar o receptor. Para Zuckerman (2017) as notícias falsas podem ser interpretadas de três maneiras: fake news para desviar o foco do problema real; a utilização de fake news para  prejudicara imagem de outrem; e a produção e compartilhamento de fake news para confundir o receptor pelo excesso de conteúdo.

Nesse cenário se encontram os idosos, como imigrantes digitais, pessoas que nasceram antes das tecnologias digitais (Palfrey;  Gasser, 2011). Essa parcela da população tem que se adaptar com as evoluções tecnológicas na medida em que elas ocorrem.  Freitas e Py (2016) ressaltam a importância das mídias digitais sociais que possibilitam ao público da terceira idade manter relações significativas. Esse engajamento também é uma forma de exercer a cidadania assegurada no artigo 7º do Marco Civil da Internet: “O acesso à Internet é essencial ao exercício da cidadania” (Brasil, 2014). Ou seja, a inserção dos idosos de maneira segura em ambientes virtuais é um direito e uma forma de mantê-los atuantes na sociedade.

Segundo Klímova et al. (2018, p. 435): “Como regra, os idosos, sem uma abordagem crítica, confiam nas informações que recebem dos e-mails de pessoas conhecidas e desconhecidas e são o grupo mais vulnerável e propenso a espalhar as chamadas fake news.”As autoras reforçam a importância de cursos voltados para o público idoso que desenvolva não somente as competências no uso das tecnologias, mas também que os capacite informacionalmente.

 

2 Letramento Informacional

O conceito de letramento informacional surgiu na década de 70 nos Estados Unidos através da expressão Information Literacy. Este foi traduzido e definido por diversos autores e de diferentes maneiras. Na Espanha é mais frequente o uso do termo ‘Alfabetização Informacional’ (Marzal; Calzada, 2007; Uribe, 2010). Já em Portugal utiliza-se o termo ‘Literacia da Informação’ (Silvia; Fernández e Martins, 2007; Tirado, 2010). No Brasil o termo foi traduzido de diversas maneiras: letramento e alfabetização informacional (Caregnato, 2000), letramento informacional (Campello, 2003) e competência em informação (Hatschbach, 2002). Apesar do reconhecimento que os termos utilizados pertencem à mesma categoria semântica­­­, é importante que não sejam considerados sinônimos.
O conceito de letramento informacional constitui um processo que “integra as ações de localizar, selecionar, acessar, organizar a informação e gerar conhecimento, visando a tomada de decisão e a resolução de problemas” (Gasque, 2010, p. 83). Ainda conforme a autora, o conceito emergiu na década de 80, e tem como finalidade a adaptação e a socialização dos indivíduos na sociedade da aprendizagem, o que ocorre quando o indivíduo desenvolve habilidades para determinar a extensão das informações necessárias; acessar a informação de maneira efetiva e eficiente; avaliar de forma crítica a informação e a suas fontes; incorporar a nova informação ao seu conhecimento prévio; usar a informação de maneira efetiva para atingir objetivos específicos; compreender os aspectos econômico, legal e social do uso da informação, além de acessá-la e usá-la de maneira ética e legal.

Quanto ao conceito de competência informacional, de acordo com a International Federation of Library Associations and Institutions – IFLA (2005), “é o que capacita as pessoas em todos os caminhos da vida para buscar, avaliar, usar e criar a informação de forma efetiva para atingir suas metas pessoais, sociais, ocupacionais e educacionais” (International, 2005, on-line). Belluzzo (2007) apresenta os padrões e indicadores da competência informacional: a) Padrão 1 – A pessoa competente em informação determina a natureza e a extensão da necessidade de informação. b) Padrão 2 – A pessoa competente em informação acessa a informação necessária com efetividade. c) Padrão 3 – A pessoa competente em informação avalia criticamente a informação e as suas fontes. d) Padrão 4 – A pessoa competente em informação, individualmente, ou como membro de um grupo, usa a informação com efetividade para alcançar um objetivo/obter um resultado. e) Padrão 5 – A pessoa competente em informação compreende as questões econômicas, legais e sociais da ambiência do uso da informação e acessa e usa a informação ética e legalmente. Diante do exposto, destaca-se que letramento informacional é processo para que a pessoa consiga atingir a competência informacional atendendo aos padrões e indicadores citados anteriormente.

 

2.1 Letramento Informacional e os Idosos

Iniciativas de letramento informacional voltadas para idosos têm sido organizadas em vários espaços, com destaque para aulas em universidades. A Universidad de Murcia na Espanha, através do seu curso para estudantes idosos, oferece a disciplina de “Acceso y uso de la información en la sociedad actual.” Segundo Gómez e Navalón (2000, p. 5) a disciplina tem como foco abordagens: “[...] relacionadas con la alfabetización informacional y tecnológica, impartida sobre todo por docentes del área de Información y Documentación, y responsabilidad del primer firmante de este trabajo.” 
Projetos como o desenvolvido pela Universidade de Murcia reverberam em outros ambientes acadêmicos. O curso desenvolvido pela biblioteca da Universidade de Huelva tem como público alvo os alunos da Oficina del Aula de Mayores e tem como base a experiência: “Acceso y uso de la información en la sociedad actual”, trabalhando com dois focos: “competencias genéricas (capacidad de aprender, aprender a aprender, etc.) y competencias básicas (tecnologías de la información, cultura tecnológica, etc.). (Morillo Moreno, 2009).

As duas iniciativas mostraram resultados positivos, segundo Gómez e Navalón (2000, p. 14): “[...] se puede considerar que los alumnos hicieron una valoración del Aula de Mayores muy satisfactoria, y en concreto la asignatura de alfabetización informacional y tecnológica ha sido muy apreciada por los mayores.” Para Morillo Moreno (2009, p. 12) o: “proyecto altamente interesante en el contexto de la programación del Aula de Mayores y en el contexto de la política y despliegue de actividades ALFIN que lleva a cabo la Biblioteca Universitaria de Huelva y estimamos conveniente que su desarrollo se consolide de manera anual.” Os autores ainda refletem sobre o papel da biblioteca universitária como uma extensão da aprendizagem.

Ações realizadas destinadas ao público idoso tem que considerar as vivências e experiências de seus alunos. Ao desenvolver Sete Faces da Informação Alfabetização no Ensino Superior, Bruce (1997) atribui o uso inteligente na aplicação, em um contexto amplo levando em conta a concepção de ética e histórica de cada indivíduo. A autora também aponta para a importância da utilização da informação de maneira sábia para um bem comum.  E isso vem ao encontro de um letramento voltado às fake news, pois não basta saber localizar a informação, é relevante desenvolver o pensamento crítico em torno do meio informacional.

 

2.2 Objetos de Aprendizagem

Os Objetos de Aprendizagem (OAs) segundo Wiley (2002) são materiais no formato digital mediado por computador que tem como objetivo aplicação pedagógica. O autor frisa a importância da reutilização do OA para mais de uma atividade com grupos diferentes. Hodgins (2002) faz associação com os blocos de LEGO® para exemplificar o reuso do material desenvolvido como OA. Embora os autores concordem no reuso Wiley (2002) discorda da analogia feita por Hodgins (2002) em relação ao LEGO®. Para Wiley (2002) os OA podem ser comparados a átomos: pequenos componentes que podem ser recombinados com outros para formar moléculas. Para ele a comparação com blocos de LEGO é simplória por tudo que acarreta a aplicação de um OA.

A Learning Object Metadata (LOM) do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE) dos Estados Unidos amplia a definição do OA: “qualquer entidade, digital ou não digital, que pode ser usada, reutilizada ou referenciada durante a aprendizagem apoiada por tecnologia” (IEEE, 2002, p. 6). Através dessa definição os objetos não seriam somente ferramentas como o computador, mas qualquer formato digital mediado por aparelhos eletrônicos, como fotos, músicas e histórias em quadrinhos.

Autores como Wiley (2002), Hodgins (2002), Tarouco (2003) veem nos OA alternativas para aproximar a sala de aula com as novas tecnologias e engajar os alunos em uma aprendizagem mais ativa. Wiley (2002, p. 20) reforça que a aplicação desse tipo de material pode ser algo benéfico para o ensino: “Se os objetos de aprendizagem atenderem à sua pressão e fornecerem as bases para uma arquitetura de aprendizado adaptável, generativa e escalável, o ensino e o aprendizado como os conhecemos certamente serão revolucionados.”
Tarouco (2003) faz uma ressalva acerca de que não adianta ter somente o material, se não pensarmos na formação de quem irá produzir esse material. Assim, é necessária a formação de competências básicas ligadas a informática. Wiley (2002) finaliza seu pensamento também pontuando a formação para profissionais e ressalta a importância do compartilhamento de experiências e de OAs para a consolidação na área de educação.

 

3 Objetivos e Metodologia

Esta pesquisa qualitativa, caracterizada como estudo de caso, pretende verificar como idosos, enquanto imigrantes digitais, podem adquirir as competências informacionais necessárias para lidar com o fenômeno das fake news? Para responder a este problema de investigação e ao objetivo geral: desenvolver através da educação soluções para conter o problema da recepção/ aceitação e propagação de fake news pelo público idoso, foi ofertado um Curso sobre Letramento Informacional, e uma das atividades foi o desenvolvimento de um OAs, visando desenvolver competências para o reconhecimento das fake news.

Para a seleção dos sujeitos da pesquisa foi estabelecida uma parceria entre o Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e o Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Sul (SESC-RS) e foram selecionadas oito participantes, idosas, que demonstraram  disponibilidade para comparecer aos encontros e interesse em utilizar as redes sociais. No encerramento do Curso foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, com as participantes e essa entrevista foi analisada de maneira qualitativa a fim de elencar as percepções do público estudado.

 

4 Desenvolvimento do Objeto de Aprendizagem

Para elaboração do OAs foi utilizada a história do Pedro e o Lobo, uma história infantil adaptada, que é de domínio público, de fácil compreensão e que possibilitou a reelaboração e a associação com os temas apresentados no Curso.

A história se inicia com o pedido do “Seu Zé” para que “Pedro” levasse o rebanho para pastar perto da floresta, pois em suas terras já não havia mais alimentação para os animais. Pedro conta para sua mãe e para o seu tio (o Lenhador) que iria realizar o pedido de seu patrão. Sua mãe se preocupa pois havia um boato sobre uma jovem que foi morta perto da floresta por lobos. Para tranquilizar a todos, o Lenhador dá um celular para Pedro caso ele precise de ajuda.

No outro dia os dois vão para o trabalho e ao passar pela praça encontram uma pesquisadora que tenta os alertar sobre algo e, no entanto, é ignorada pelos dois. O menino se sente entediado durante o trabalho e usa o celular para enganar o tio, que o vem socorrer a cada ligação. A ação se desenrola algumas vezes, até que no final da semana o Lenhador não consegue cortar nenhuma árvore, pois sua concorrência, que era uma empresa de Seu Zé, havia cortado tudo.

Ao final, ao atravessar a praça, o Lenhador conversa com a pesquisadora que foi ignorada no começo da história e ela o surpreende com a informação de que haviam animais sendo extintos naquela região e entre eles, o lobo.

A história serve para ensinar as consequências da mentira e as adaptações realizadas permitiram que se utilizasse a divulgação de fake news para atender a demanda docurso. Ainda, foram acrescentados referenciais atuais como a utilização de telefones celulares e outras alterações também foram feitas para aproximar a história do contexto brasileiro.

 

4.1 Formato

O formato escolhido do OAs foi deuma história em quadrinhos (HQ) e para sua confecção foi utilizado o software Pixton, que é gratuito durante seu primeiro mês de uso, e oferece imagens, balões de conversa e cenários prontos que facilitaram a confecção dos quadrinhos.

O suporte utilizado para a apresentação da HQ foi o digital nos formatos PDF e Power Point, para o acesso tanto nos smartphones quanto no computador, possibilitando ampliar as figuras para facilitar a leitura, visando a acessibilidade da turma de idosas.

 

4.2 Temas debatidos a partir da HQ Pedro e o Lobo

Os temas abordados através de um cenário fictício com elementos inseridos do contexto atual foram: Dis-information, Pós-Verdade, Meios de Transmissão e Transmissor e Fontes oficiais. A seguir serão detalhados esses itens.

 

Fonte. Autores, 2020

Figura 1. Construção da Fake News
Fonte. Luce, Soares, Estabel, 2020

 

Figura 2. Ferramenta Fonte. Autores, 2020

Figura 2. Ferramenta
Fonte. Luce, Soares, Estabel, 2020

 

A Figura 1, traz a representação, através da fala da mãe de Pedro, da construção da notícia falsa. A fonte de informação não é clara “Escutei lá no Salão da Cleusa...”, não sendo possível atribuir exclusivamente a uma pessoa o repasse da informação e a história não possui um embasamento sólido proveniente de fontes fidedignas.

Na Figura 2, foram demonstrados dois temas centrais na propagação de notícias falsas: o meio (Digital) e o suporte (Smartphones) registrados pela fala do Tio de Pedro ao entregar o celular ao rapaz. Também, a representação da família remete à pesquisa realizada pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital (Universidade de São Paulo, 2018), que constatou que grupos familiares compartilham mais notícias falsas que outros grupos dentro do Whatsapp.

 

Figura 3. Pós-verdade Fonte. Autores, 2020

Figura 3. Pós-verdade
Fonte. Luce, Soares, Estabel, 2020

 

Figura 4. Dis-Information Fonte. Autores, 2020

Figura 4. Dis-Information
Fonte. Luce, Soares, Estabel, 2020

 

Para tratar do tema pós-verdade foi utilizada uma alegoria com a personagem de uma pesquisadora. A Figura 3 mostra a pesquisadora tentando conversar com as personagens principais e não sendo bem sucedida. Essa representação ilustra a pessoa que prefere ignorar os fatos e viver na sua própria realidade, aceitando somente o que lhe convém mesmo que inverídico.

A Figura 4 representa uma das definições de desinformação cunhada pelo Conselho da Europa (COE). A dis-information é definida pelo COE (Wardlee Derakhshan, 2017) como: “Informações falsas e criadas deliberadamente para prejudicar uma pessoa, grupo social, organização ou país.” A figura mostra o personagem Seu Zé entregando dinheiro para Pedro como pagamento pelos serviços prestados e aquele também pede sigilo sobre algum acordo feito entre os dois.

 

Figura 5. Fontes Oficiais Fonte. Autores, 2020

Figura 5. Fontes Oficiais
Fonte. Luce, Soares, Estabel, 2020

 

Ao final da história o Lenhador aceita falar com a moça que o interpelou no início. Ela se apresenta como uma pesquisadora universitária e revela que não existem mais lobos naquela região. A figura da pesquisadora vinculada a uma instituição universitária corresponde a representação da fonte fidedigna da informação com caráter científico. Essa passagem também reflete a importância de informações verificadas, assim, foi possível desconstruir a informação falsa divulgada pela mãe de Pedro.

Ao todo foram confeccionados 16 quadrinhos para contar toda a história e desenvolver a narrativa. Os eventos e a ordem de aparição das personagens foram construídos para facilitar a compreensão das idosas participantes. Durante o curso, a leitura foi realizada pelo pesquisador e mediador que auxiliou na compreensão e também na utilização dos dispositivos digitais em que foi disponibilizada a história. Havia um computador disponível para cada participante docurso e a HQ também foi compartilhada através de um grupo de Whatsapp para quem optasse pela leitura no smartphone.

 

5 Aplicação e Resultados do Objeto de Aprendizagem

A atividade se dividiu em duas etapas: a primeira consistiu na leitura individual da HQ e a segunda, em uma leitura dirigida em que o pesquisador evidenciou os pontos que iriam ser abordados durante todo o curso. Durante essas atividades foram observadas algumas dificuldades com o manuseio do mouse para passar para o próximo quadro da HQ. Uma das participantes da pesquisa leu apenas o primeiro quadro da história acreditando que aquilo era toda a história. Ao notar a dificuldade na execução da tarefa proposta foi necessária uma intervenção para auxiliar na leitura completa da história, realizada através de explicação sobre a utilização das ferramentas necessárias (mouse e teclado).

Ao término da primeira leitura individual, o quadrinho foi projetado em uma tela e se procedeu a leitura dirigida pelo pesquisador; então, foi possível notar as interjeições do grupo e a compreensão do que tinham acabado de ler.

As respostas das participantes foram parecidas entre si: todas gostaram da iniciativa e pontuaram que a maneira como foi apresentado o tema foi relevante para se conhecer o conteúdo que iria ser abordado com mais profundidade durante as aulas seguintes. Abaixo o Tabela 1 traz as principais falas de cada sujeito:

 

Sujeitos
Respostas
Sujeito 1 Então essa estrutura foi muito boa. E também o conteúdo que tu apresentasse, a história, as formas de informação, isso é muito importante [...].”
Sujeito 2 “Eu gostei, achei bom.”
Sujeito 3 “Para falar a verdade eu sou um pouco lenta, eu custei para entender, depois eu tive que ver de novo a historinha, reler em casa, para depois entender. Mas depois sim, ai eu entendi, ai foi tranquilo. Achei que serviu sim bem para ‘você se ligar’ mesmo. Foi uma maneira sutil.”
Sujeito 4 - Não participou da Atividade-
Sujeito 5 “Amei aquilo, amei a história, amei, amei. No inicio eu disse para Monitora: ‘ eu não tô presentado atenção.’ Então ela falou: ‘ te acalma, espera um pouquinho.’Dai depois eu disse: ‘ ahh, então é isso!’ É muita informação em voltar para direcionar ali. Então até a coisa começar entender demorou um pouquinho para mim. Mas depois entendi. A tá então é assim e assim.”
Sujeito 6 “Com certeza (falando sobre a aplicação da história), muito, muito bom para apresentação do curso.”
Sujeito 7 “Inclusive quando tu (Referindo ao professor) começou com aquela história, a gente olhou e não percebeu que era uma fake news, só quando a gente chegou no fim. Talvez uma pessoa que não esteja pensando em fake news, nem perceba que a história é sobre isso, que ali que não tem mais lobos e que o menino repassava.” (Referindo-se ao conteúdo da história.)
Sujeito 8 “No momento eu achei que era uma coisa mais difícil, mas depois eu vi que não [...]  [...] uma pessoa persuadindo a outra, enganando no caso, mudando a ideia da pessoa.”

Tabela 1: respostas dos sujeitos
Fonte: Luce, Soares, Estabel, 2020.

 

Ao final todos relataram que foi necessária a leitura dirigida pois a história por si só não iria atingir o objetivo proposto. E também, o grupo concordou que foi uma boa maneira, direta e resumida, de se mostrar o conteúdo que seria abordado no curso.

 

6 Conclusão

Inicialmente, a dificuldade apresentada pelos imigrantes digitais no uso das tecnologias e a falta de leitura e de habilidades de interpretação de texto evidenciam a necessidade de um trabalho efetivo de letramento informacional com a população idosa. O uso de metáforas traz uma dificuldade para a compreensão daqueles que não possuem fluência da leitura e por isso também se considera que são um público em potencial para serem enganados pelas fake news.

Os idosos como imigrantes digitais sofrem com essas mudanças tecnológicas constantes, tendo que se adaptar a fim de exercer seu papel social dentro de sua comunidade. Para tentar contero avanço de fake news em ambientes digitais, ações como o letramento informacional são relevantes para despertar o pensamento crítico acerca do conteúdo recebido e para isso o bibliotecário tem que assumir o papel central na aplicação e divulgação do letramento informacional visando capacitar tanto os usuários de suas instituições como a população de uma maneira geral.

Embora o OA possa inicialmente não ter se mostrado funcional, observa-se que com uma mediação adequada ele atingiu o objetivo proposto e se mostrou efetivo para o desenvolvimento do curso como um todo. A utilização do formato de história em quadrinho pode ser considerada uma técnica interessante de abordagem de OA visto que se utiliza de uma linguagem rápida, fácil e mais acessível para a maioria da população, e além disso, evidencia a facilidade da disseminação das fake news e como ela pode estar presente de uma maneira sutil e muitas vezes disfarçada como algo normal e que é pertencente ao nosso cotidiano, como se não pudéssemos nos desvencilhar delas e devêssemos conviver e minimizar sua presença, o que não seria desejável.

Ainda, se destaca a importância da criação de OAs com abordagem lúdica relacionados ao tema das fake news,e também se sugere que sejam realizadas mais experiências como esta, atendendo diferentes públicos a fim de demonstrar a aplicabilidade e para que ocorra a aprendizagem.

 

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Notes

1 No Brasil a pessoa é considerada idosa ao atingir a idade de 60 anos, conforme a Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003 (Estatuto do Idoso).

2 A utilização do recurso do Whatsapp pela turma e pelo pesquisador se deu pela facilidade de utilização dos idosos, que já estavam habituados a esta rede. Então, por essa plataforma foram disponibilizadas as aulas e ela também serviu como um canal de troca de informações entre os participantes.

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